Caeiro, também aqui, é o mestre. Este blogue é mantido por Possidónio Cachapa e todos os que acham por bem participar. A blogar desde 2003.
24 de abril de 2006
Chega a 2a-feira à bruta. Com campainhas de porta, manhã cedo. Carteiros trazendo coisas registadas que se são registadas serão por certos coisas, e dificilmente boas. O sol está lá fora, valha-nos isso, mas aqui dentro ainda não aquecemos. É mais o entorpecimento do fim-de-semana que não aconteceu.Que alguém mande chamar o criado que toma conta da carruagem das vitaminas! Please.
21 de abril de 2006
Abriu ontem, com o filme da Miranda July, "Me and You and Everyone We Know" e disparou com mais cinco sessões (a maioria esgotada).
Ao consultar o programa chega-se sempre à mesma conclusão: não dá para ver tudo, nem que se mude para uma tenda no jardim ao lado.
Até dia 29, o Indie volta a provar que um festival feito por pessoas que entendem realmente de cinema contemporâneo, que trabalham como doidos durante um ano inteiro, suportando os atrasos nos pagamentos das entidades apoiantes (nomeadamente a Câmara e o ICAM), se pode tornar num caso sério.
Bastaria ver a forma ingénua com que o Fantasporto está a gastar o orçamento em publicidade para promover uma mostra em Lisboa, agressivamente marcada para as mesmas datas, e as tentativas de intimidação junto de realizadores portugueses que outros festivais começaram a fazer, para perceber a importância do Indie. E neste parágrafo resume-se o princípio trágico dos portugueses: toda o sucesso que resulte do trabalho sério e honesto será sabotado. Para que não fique de exemplo.
No entretanto, é irmos vendo alguns dos melhores filmes feitos no mundo neste último ano ;)
"O Parlamento da Bélgica aprovou ontem à noite um projecto de lei que autoriza a adopção de crianças por casais homossexuais", in Público.
A gente por cá, nem pensar. Crianças só entregamos a pais e avós que as queimam vivas, antes de as deitarem ao Douro, a mães que as cortam em pedaços e alimentam os porcos com elas, ou a pais alcoólicos que lhes batem e as violam até que saiam de casa.
Citando o director do Refúgio Aboím Ascensão, há um ano atrás, "Mais vale que fiquem a vida toda numa instituição do que serem criados por não-heterossexuais".
Calculo que entre as faltas ao Parlamento e o regresso do escritório de advocacia onde acumulam, os nossos deputados se sintam reconfortados com a ideia que o mais importante é impedir a pandemia gay...
20 de abril de 2006
Ai que grande alegria: abriu mais um casino.
O povo mobilizou-se para ver as senhoras chegar de vestido de noite e os senhores muito ricos, ou muito endividados, a sair do parque de estacionamento. Houve muita passadeira vermelha e muito fogo de artíficio. As televisões em directo e toda a gente a dizer: "Aqui é só espectáculos e máquinas a 1 cêntimento a manivelada. Qual ganhar dinheiro? Os proprietários só querem a alegria de todos. O senhor Ho é um santo tão grande como o abençoado Rat Singer".
Fiquei emocionado. Ainda há bons corações.
Mais um sonho do querido Santana Lopes tornado real. Um túnel de fichas, no fundo.
Alvíssaras! Alvíssaras! Chegou o nosso casino.
18 de abril de 2006
MATERNA DOÇURA - LISBOA
Chega finalmente a Lisboa, a adaptação do romance MATERNA DOÇURA, pelo grupo de teatro Trigo Limpo/ACERT.
Com uma digressão feliz por muitas localidades, o espectáculo poderá ser visto no Teatro Cinearte (em Santos), nos dias 28, 29 e 30 de Abril e 1 de Maio.
Os interessados que metam já na agenda, para não se esquecerem.

A GNR está satisfeita: este ano só morreram de imediato 10 pessoas, nos 1244 acidentes registados. As restantes 25 vítimas em estado grave ainda levarão uns dias a dividirem-se entre "ligeiras" e "fatais". O ano passado foi pior, daí a alegria da nossa guarda.
Os funcionários da Prevenção Rodoviária é que estão chateados. O governo só lhes quer dar 1 milhão de euros para (deduzo eu) salários, percentagens às agências de publicidade e pagamento de materiais. Terá preferido investir nos equipamentos dos já citados guardas. Na entrevista à SIC Notícias, o representante da referida associação fartou-se de falar de dinheiro, sem nunca referir a eficácia das campanhas. Pois eu tenho uma ideia sobre esses resultados: sempre que saio de carro, vejo a minha vida e a da minha família ameaçada. Condutores que ultrapassam em curvas, sobre traços contínuos; gente que se atira para cima de mim se pretendo mudar de faixa (assinalando, atempadamente, a coisa, note-se) e ainda me buzina e chama maluco; pamonhas que andam a 60 à hora nas estradas nacionais, em todos os sítios em que a lei e o bom senso não permitem ultrapassagens para mal avistam um sinal de final da proibição começarem a acelerar (as vezes em que sou forçado disputar a passagem com velhos lunáticos e tipos agarrados ao volante, enquanto avisto a aproximação de um carro de frente, dariam para encher um livro). Quando ouço os resultados das intervenções da Brigada de Trânsito, fico com os ouvidos cheios de "documentação irregular", "cinto mal posto" e "colete luminescente não-homologado pela CEE". Raramente ouço falar em detenção por manobra perigosa, condução em máximos E excesso de velocidade, entre outras situações com que me deparo sempre que conduzo. Não é "às vezes": é "sempre".
Quando saímos para fora das cidades, na Páscoa, integramos um grupo, do qual várias pessoas morrerão ou ficarão com danos irreparáveis. Esperamos apenas que ainda não seja a nossa vez. Essa é a prevenção que temos.
17 de abril de 2006
OPUS BROWN
A seita religiosa que mais amigos tem na banca portuguesa, para não mencionar em grupos de media e na organização que nos alegra semanalmente com o Euromilhões, veio pedir à Sony que, por amor de Jesus, não distribuisse o filme que lhe custou milhões de dólares a produzir.
Eu acho que uma ingenuidade destas (que só tem paralelo com a crença nas aparições e nas virgens sangradoras) mereceria a comoção dos proprietários japoneses. Mas enfim, se for exbido será por vontade de Deus. E quer a Opus Dei perceba ou não, os caminhos do Senhor são insondáveis.
É já na quinta-feira que começa a 3a edição do mais importante festival de cinema português, o Indie. Centenas de filmes, curtas e longas metragens, uma mostra de cinema sueco e novas secções especializadas, como o IndieMusic e o Laboratório (para o people MUUUITTO radical) vão criar um rodopio de gente na Avenida de Roma. Para os mais portugueses, isto é, que guardam tudo para a hora, vou adiantando que a venda de bilhetes já abriu, as salas são de dimensão média, e que as meninas da bilheteira estão fartas de dar à unha... Enfim, cada um sabe de si (e Deus coitado é que tem que aguentar com todos). De 20 a 30 de Abril, nos cinemas King, Londres e Fórum Lisboa.
Uma juíza vai decidir se os juízes devem ou não ter dois meses de férias mais uma vez. A Associação Sindical para a Malandrice da Justiça (creio ser esta a denominação, mas posso estar errado...) interpôs um processo contra a ordem do Ministério da Justiça, que caberá à magistrada decidir.
Atendendo à escolha que os juízes fizeram do seu bastonário, tenho a certeza de que não haverá lugar para posições corporativistas...
(socorro!)
Quem compra os manuais escolares sabe quanto é que custa cada um. Quem lida com o mundo editorial sabe que as maiores editoras nacionais são as que publicam os referidos manuais. São tiragens de milhares e milhares de livros de preço elevado e aquisição obrigatória.
Nomeadamente os de português.
Que, por enquanto, vão utilizando excertos do trabalho de escritores vivos. Esses excertos são lidos, comentados e servem de base de trabalho nas aulas. Até aqui, tudo em ordem... Não fosse o pequeno detalhe de não haver pagamento de direitos autorais. Ao arrepio da lei que estabelece claramente essa obrigação como contrapartida das editoras. Todo o livro tem custos. Nomeadamente o de remunerar os autores que o integram. Caberia ao ministério da educação verificar se o manual que acabam de aprovar leva em anexo, os contratos com os autores. Caso contrário estão a contribuir para um acto ilícito.
7 de abril de 2006
Amanhã vou para a província, por uns dias. Isto é, para Portugal no que tem de mais real. Hei-de ver as árvores em flor, as cabras que tentam comer as ervas através da rede e a vizinha campestre que, segurando um saquinho com ovos frescos na mão, me virá cumprimentar como se eu fosse um astronauta acabadinho de chegar de Vénus. O que num certo sentido até será verdade...
Ainda há nos jornalistas nacionais sentimentos de grande inteligência e de luta contra a injustiça, neste país. Num espaço de duas semanas vejo-os brandir a espada do "Censura, Não!" (mesmo que seja para chamar putas a freiras. Se alguém lhe apetecer fazê-lo, desde que se reclame como "estudioso" ou "jornalista", tem todo o direito. Enfim..., adiante) e agora a do "Vem aí a Denúncia". Isto a propósito do ar um bocadinho assustado do ministro da saúde ao anunciar o P-R-O-J-E-C-T-O de lei anti-fumo. "Que era para proteger as pessoas no local de trabalho e tal... Se os amigos deixassem, ainda veriam que não era assim tão mau... e nós não somos más pessoas, quase tudo aqui fuma...a gente até pode ceder... Sempre são milhões de euros que a Tabaqueira arrecada e com os quais se poderão pagar tantos favores políticos dando cargos na administração e assim...". Os jornalistas iam-no fumando, confrontando-o com a pergunta se ele iria "denunciar" pessoas que visse a infringir a lei? E ele lá se defendeu como pôde.
Já uma posição mais clara tem o dirigente da bancada parlamentar do PS ,Ricardo Rodrigues. O homem é obrigado a concordar porque, segundo ele, é o que se faz lá para a Europa e a malta não tem voto na matéria mas "a proposta do Governo não pode ser feita com "fundamentalismo"". Ou seja, deveria ficar ao critério dos "toxicodependentes" (ou deveria usar "psicodependentes", já que se gosta mais de imaginar que a coisa não é química, embora o seja?) e dos que lucram com isto.

Toda a gente sabe o que eu penso. É óbvio que não se pode fumar em todo o lado. O tabaco liberta substâncias químicas prejudiciais para a saúde. Logo, cada um tem o direito de as enfiar para dentro do corpo , se lhe der na bolha, mas não de as espalhar. Tão simples como isto. Como se trata de uma dependência, logo, irracional, é necessário legislar.
Quantos dos que protestam gostariam de voltar uns anos atrás ao tempo em que as pessoas escarravam para o chão, os homens urinavam contra as paredes à vista de todos, e os penicos eram despejados na via pública? Que avancem, os que querem regredir.
De qualquer forma, não se zanguem, porque há muitos interesses económicos em jogo. Logo, a lei não avançará desta forma. Os lóbis que ganham com isto vão tentar reduzir os prejuízos, dilatar a aplicação da lei e de caminho, mais alguns de nós contrairemos doenças pulmonares à conta do "prazer" de alguns.
Oh meu Deus... Será que estas palavras me condenam como "Denunciante"?... Por outro lado... ninguém poderá ir contra, porque isso seria "Censura".
É bom viver num país onde tudo é tão claro.
6 de abril de 2006
Tenho um bocado de saudades do tempo em que as pessoas se irritavam com algumas coisas que eu aqui escrevia. Havia nessa discordância, frequentemente, um entendimento diferente do mundo ou, muito simplesmente, uma má interpretação do post.
Milhares de pessoas visitam o prazer_inculto (algumas via google com a indicação "gajas boas", é certo - mas é uma minoria) por semana. Do mundo todo onde se fala ou se entende o português. E contudo pouca gente usa a caixa de comentários.
Fico sem saber se é pelo desinteresse do que aqui é dito ou se concordam em bloco.
Qualquer um dos casos é preocupante.
ps: se a razão tiver a ver com aquela charada de reproduzir as letras e os números não se deixem intimidar. Eu próprio passo por isso quando respondo a alguém. É pateta, mas evita o spam.
5 de abril de 2006
Os funcionários judiciais estão indignados. O governo emitiu uma circular que os impede de falar de assuntos de serviço com a comunicação social.
De facto, é extraordinário: primeiro, acabaram com os dois meses de férias no Verão, agora estão a tentar retirar, a muitos, a fonte de rendimentos que é a venda de informações sobre os processos em julgamento, a jornalistas...
Qualquer dia, começam a querer que se deixem de merdas e comecem a despachar os triliões de processos.
É de mais.
Greve, já!
4 de abril de 2006
Nem só de lixo vive o mercado editorial português actual. Muito pelo contrário. Os bons saem regularmente. Passam é o tempo todo a desviar a cara das bostas e da indiferença dos seus contemporâneos.
Adiante.
Assim, refira-se o lançamento do livro de poemas do escritor e jornalista Fabrício Carpinejar. Nascido em Caxias do Sul (no estado do Rio Grande do Sul, bem lá no fundão - cosmopolita, porém - do Brasil), Fabrício publicará CAIXA DE SAPATOS, antologia de poesia, pela Quasi. Será no dia 12 de Abril, na FNAC Chiado, às 18h30, em Lisboa.
A introdução do Inglês desde os primeiros anos de escola pelo governo de Sócrates já está a dar resultados. Um artigo de economia do Diário de Notícias declarava: "De acordo com o reporte enviado pelo Governo...".
Espera-se que em breve para as entregas dos mesmos relatórios se siga o exemplo dos amigos brasileiros que já só falam "delivery".
Estamos deliverados à bicharada, é o que é...
3 de abril de 2006
Enquanto assisto a um episódio do "Verão Azul", tento explicar à minha filha por que razão o Pancho se dá ao trabalho de roubar uma égua branca e de arriscar a pele, apenas para cumprir o sonho de Bea. E não consigo. O tempo do romantismo acabou. O tempo dos ideais, do estender cordas para resgatar de uma falésia um desconhecido em risco escureceu.
Vêm-me à cabeça as palavras de um grande escritor amigo: "é o refluxo". Depois da generosidade e dos ideais dos anos 60 e 70 chega a "revanche" do materialismo. Nada dialético, por sinal. O tempo das vacas com pressa.
Nada será definitivo e o coração dos homens não se aguentará para sempre suspenso no seu próprio vazio.
Mas até lá parece que a noite não terá fim...


